TRAVESSEIRO SUSPENSO POR FIOS DE NYLON

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Adélia Prado – o poder humanizador da poesia

Adélia Prado – o poder humanizador da poesia

Adélia Prado - foto: (...)
"Esconder-se no porão, de vez em quando, é necessidade vital. Precisamos de silêncio e solidão, e, não, apenas os poetas. Senão, corremos o perigo de nos esvairmos em som, fúria e esterilidade. O campo para que a palavra se instale para o autor e para o leitor é o campo do silêncio e da audição."
- Adélia Prado, em  jornal 'O Tempo', 16 de outubro de 2010.


Adélia Luzia Prado Freitas  poeta, romancista e dramaturga, nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935. Filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Leva uma vidinha pacata naquela cidade do interior: inicia seus estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e mora na rua Ceará.
No ano de 1950 falece sua mãe. Tal acontecimento faz com que a autora escreva seus primeiros versos. Nessa época conclui o curso ginasial no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração, naquela cidade.
No ano seguinte inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui em 1953. Começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955.
Adélia Prado - foto: (...)
Em 1958 casa-se, em Divinópolis, com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A. Dessa união nasceriam cinco filhos: Eugênio (1959), Rubem (1961), Sarah (1962), Jordano (1963) e Ana Beatriz (1966).
Antes do nascimento da última filha, a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis.
Em 1972 morre seu pai e, em 1973, forma-se em Filosofia. Nessa ocasião envia carta e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade.

“Moça feita, li Drummond a primeira vez em prosa. Muitos anos mais tarde, Guimarães Rosa, Clarisse. Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto. Minha felicidade foi imensa. Continuava a escrever, mas enfadara-me do meu próprio tom, haurido de fontes que não a minha. Até que um dia, propriamente após a morte do meu pai, começo a escrever torrencialmente e percebo uma fala minha, diversa da dos autores que amava. É isto, é a minha fala.” (- Adélia Prado, em "Poesia sempre", Publicado por Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional, Departamento Nacional do Livro, 1993.)

Seu primeiro livro - Bagagem (1975) - publicado aos 40 anos, mãe de família com cinco filhos. Carlos Drummond de Andrade leu os originais, gostou e a proclamou poeta. Afonso Romano de Sant’Anna também gostou e ajudou a impulsionar sua carreira. A partir daí não parou mais de escrever e de chamar a atenção dos críticos e o interesse dos leitores. 
Bagagem, meu primeiro livro, foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando.”

O livro é lançado no Rio, em 1976, com a presença de Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitscheck, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho, entre outros.
Estréia em prosa no ano seguinte, com Soltem os cachorros. Com o sucesso de sua carreira de escritora vê-se obrigada a abandonar o magistério, após 24 anos de trabalho. Nesse período ensinou no Instituto Nossa Senhora do Sagrado Coração, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, Fundação Geraldo Corrêa — Hospital São João de Deus, Escola Estadual são Vicente e Escola Estadual Matias Cyprien, lecionando Educação Religiosa, Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Sua peça, O Clarão,um auto de natal escrito em parceria com Lázaro Barreto, é encenada em Divinópolis.

"O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
Em 1980, dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. No ano seguinte, ainda sob sua direção, o grupo encenaria A Invasão, de Dias Gomes. Publica Cacos para um vitral. Lucy Ann Carter apresenta, no Departament of Comparative Literature, da Princeton University, o primeiro de uma série de estudos universitários sobre a obra de Adélia Prado.
Em 1981 lança Terra de Santa Cruz.

De 1983 a 1988 exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis, a convite do então prefeito Aristides Salgado dos Santos. 

Os componentes da banda é publicado em 1984.
Adélia Prado - foto: (...)
Participa, em 1985, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América.
Fernanda Montenegro estréia, no Teatro Delfim - Rio de Janeiro, em 1987, o espetáculo Dona Doida: um interlúdio, baseado em textos de livros da autora. A montagem, sob a direção de Naum Alves de Souza, fez grande sucesso, tendo sido apresentada em diversos estados brasileiros e, também, nos EUA, Itália e Portugal.

Apresenta-se, em 1988, em Nova York, na Semana Brasileira de Poesia, evento promovido pelo Comitê Internacional pela Poesia. É publicado A faca no peito.
Participa, em Berlim, Alemanha, do Línea Colorada, um encontro entre escritores latino-americanos e alemães.

Em 1991 é publicada sua Poesia Reunida.

Volta, em 1993, à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis, integrando a equipe de orientação pedagógica na gestão da secretária Teresinha Costa Rabelo.
Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro O homem da mão seca.  Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê "a aridez como uma experiência necessária" e que "essa temporada no deserto" lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

"O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez."

Deus é personagem principal em sua obra. Ele está em tudo. Não apenas Ele, mas a fé católica, a reza, a lida cristã.

"Tenho confissão de fé católica. Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. Qual a importância da religião? Dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte. Acredito que personagens são álter egos, está neles a digital do autor. Mas, enquanto literatura, devem ser todos melhores que o criador para que o livro se justifique a ponto de ser lido pelo seu autor como um livro de outro. Autobiografias das boas são excelentes ficções."

Estréia, em 1996, no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte, a peça Duas horas da tarde no Brasil, texto adaptado da obra da autora por Kalluh Araújo e pela filha de Adélia, Ana Beatriz Prado.

São lançados Manuscritos de Felipa e Oráculos de maio. Participa, em maio, da série "O escritor por ele mesmo", no ISM-São Paulo. Em Belo Horizonte é apresentado, sob a direção de Rui Moreira, O sempre amor, espetáculo de dança de Teresa Ricco baseado em poemas da escritora.

Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura.  Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá.

"Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português."

Adelia Prado - foto: FocoinCena
Em 2000, estréia o monólogo Dona da casa, em São Paulo, adaptação de José Rubens Siqueira para Manuscritos de Felipa. A direção é de Georgette Fadel e Élida Marques interpreta Felipa.
Em 2001, apresenta no Sesi Rio de Janeiro e em outras cidades, sarau onde declama poesias de seu livro Oráculos de Maio acompanhada por um quarteto de cordas.

Dentro do projeto de reedição de toda a obra da autora, foi lançado em Março de 2006 seu primeiro livro para o público infantil, Quando eu era pequena (2006). Inspirado na infância da própria Adélia, o livro traz as lembranças de uma menina do interior durante a Segunda Guerra Mundial. Na vida simples com os irmãos, vendo o avô cuidar da horta e a mãe cozinhar o almoço, quando ter um sofá era um luxo e retratos não se tirava pois eram caros demais, a menina descobre a poesia. E a escritora mostra mais uma vez como as palavras simples podem emocionar e criar novamente aquilo que o tempo já levou.
Em prosa ou verso, Adélia abre os olhos do leitor para o que há de sagrado nas coisas mais triviais. Sem prescindir delas, Adélia tornou-se uma das autoras nacionais mais requisitadas em eventos sobre literatura, no Brasil ou em países como Cuba, na Alemanha ou nos EUA, e sua obra tornou-se objeto de estudos em universidades como Princeton. Atualmente, sua obra está sendo reeditada pela Editora Record.
:: Fonte: Releituras / Agência Riff.

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis."
- Carlos Drummond de Andrade


“(...) Além de ter instalado uma linguagem sua e além de ter se enraizado em sua paisagem natural, Adélia descobre a mulher concreta dentro de si mesma, além das ideologias, além dos preconceitos, e assume uma eroticidade que, de repente, faz ressaltar a eroticidade ausente de nossa ´poesia feminina´ convencional.”
- Affonso Romano de Sant’Anna, em "Coração disparado".
Adélia Prado - foto: (...)
CRONOLOGIA
1935 - Nasce em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro.
1950 - A morte da sua mãe a leva a escrever os primeiros versos.
1955 - Começa a lecionar na Escola Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho.
1958 - Casa-se com José Assunção de Freitas, que se torna importante referência para sua vida e obra.
1973 - Forma-se em filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis.
1975 - No dia 9 de outubro, Carlos Drummond de Andrade (1902 -1987) publica crônica no Jornal do Brasil, chamando atenção para o trabalho, ainda inédito, de Adélia Prado.
1976 - Bagagem é lançado no Rio de Janeiro, com a presença do filólogo Antônio Houaiss (1915 - 1999), de Rachel Jardim (1926), de Carlos Drummond de Andrade, de Clarice Lispector (1925 - 1977), do ex-presidente Juscelino Kubitscheck (1902 - 1976) e de Affonso Romano de Sant'Anna (1937), entre outros.
1978 - Recebe o Prêmio Jabuti, pelo livro de poemas O coração disparado.
1979 - Estréia na prosa com Solte os Cachorros; abandona o magistério, após 24 anos de trabalho; lança em Divinópolis o auto-de-natal O Clarão, escrito em parceria com o escritor Lázaro Barreto (1934).
1980 - Dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna (1927), em Divinópolis.
1981 - Com o mesmo grupo, dirige a montagem de A Invasão, de Dias Gomes (1922-1999).
1981- Publica o romance Cacos para um Vitral e o livro de poemas Terra de Santa Cruz; neste mesmo ano é apresentado, no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Princeton, Estados Unidos, o primeiro de uma série de estudos sobre sua obra.
1983/1988 - Exerce a função de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Divinópolis.
Adélia Prado - foto: (...)
1984 - Publica o romance Os componentes da banda.
1985 - Participa, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América.
1987 - A atriz Fernanda Montenegro (1929) estréia o espetáculo Dona Doida: Um Interlúdio, baseado em textos de Adélia Prado, com direção de Naum Alves de Souza (1942). Grande sucesso no Brasil, a peça é representada também nos Estados Unidos, Itália e Portugal.
1988 - Apresenta-se, em 1988, em Nova York, na Semana Brasileira de Poesia, evento promovido pelo Comitê Internacional pela Poesia. Ainda, participa, em Berlim/ Alemanha, do Línea Colorada, um encontro entre escritores latino-americanos e alemães. e Publica o livro de poemas A faca no peito.
1991 - Publica Poesia Reunida.
1993 - Integra a equipe de orientação pedagógica da Secretaria Municipal de Cultura de Divinópolis.
1994 - Após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge com o livro O homem da mão seca. Conta à autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê “a aridez como uma experiência necessária” e que “essa temporada no deserto” lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.
“O que se passou? Uma desolação, você quer, mas não pode. Contudo, a poesia é maior que a poeta, e quando ela vem, se você não a recebe, este segundo inferno é maior que o primeiro, o da aridez.”
1996 - Estréia da peça Duas Horas da Tarde no Brasil, adaptada da obra da autora pela filha Ana Beatriz Prado e por Kalluh Araújo, no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte.
1999 - Publica o livro de poemas Oráculos de maio e e o romance Manuscritos de Felipa.
2000 - Lança o CD O Tom de Adélia Prado, no qual lê poemas do livro Oráculos de Maio.
2003 - Lança o CD O Sempre Amor, com leituras de alguns de seus poemas de amor.
2005 - Publica o romance Quero minha mãe.
2010 – Publica o livro de poemas Duração do dia; Que recebe Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação da Biblioteca Nacional e a estatueta da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), ambos na categoria poesia.
2011 - Lança o livro infanto-juvenil Carmela vai à escola.
2013 - Publica o livro de poemas Miserere.


Humano

A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.

Adélia Prado - foto: (...)

Explicação de poesia sem ninguém pedir 
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento.
- Adélia Prado, em "Bagagem" São Paulo: Editora Siciliano, 1993.




Disritmia
Os velhos cospem sem nenhuma destreza
e os velocípedes atrapalham o trânsito no passeio.
O poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos, as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
A escova ficou velha e não penteia.
Neste exato momento o que interessa
são os cabelos desembaraçados.
Entre as pernas geramos e sobre isso
se falará até o fim sem que muitos entendam:
erótico é a alma.
Se quiser, ponho agora a ária na quarta corda,
para me sentir clemente e apaziguada.
O que entendo de Deus é sua ira,
não tenho outra maneira de dizer.
As bolas contra a parede me desgostam,
mas os meninos riem satisfeitos.
Tarde como a de hoje, vi centenas.
Não sinto angústia, só uma espera ansiosa.
Alguma coisa vai acontecer.
não existe o destino.
Quem é premente é Deus.
- Adélia Prado, no livro "Bagagem". São Paulo: Editora Siciliano, 1999.




"Não foi à toa que Adélia Prado disse que 'erótica é a alma'. Enganam-se aqueles que pensam que erótico é o corpo. O corpo só é erótico pelos mundos que andam nele. A erótica não caminha segundo as direções da carne. Ela vive nos interstícios das palavras. Não existe amor que resista a um corpo vazio de fantasias. Um corpo vazio de fantasias é um instrumento mudo, do qual não sai melodia alguma. Por isso, Nietzsche disse que só existe uma pergunta a ser feita quando se pretende casar: 'continuarei a ter prazer em conversar com esta pessoa daqui a 30 anos?”
- Rubem Alves, em "Um corpo com asas", no livro "A alegria de ensinar". São Paulo: Editora Ars Poética, 1994, p. 58.


Adélia Prado - foto: Nélio Rodrigues


POEMAS ESCOLHIDOS  DE ADÉLIA PRADO

A cólera divina
Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei - 
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos, 
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido 
demora um pouco a latir, 
a festejar seu dono
- ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar 
Por que razão me bates? 
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas 
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
- Adélia Prado, do livro "O pelicano", em 'Poesia Reunida', Rio de Janeiro: Editora Siciliano, 1991, p. 338.



A paciência e seus limites
Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.
- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.





Adélia Prado - foto: (...)

A serenata 
Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mãos incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobro 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos 
— só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa? 
- Adélia Prado, em "Bagagens". Rio de Janeiro: Imago, 1976.


A transladação do corpo
Eu amava o amor
e esperava-o sob árvores, 
virgem entre lírios. Não prevariquei.
Hoje percebo em que fogueira equívoca
padeci meus tormentos.
A mesma em que padeceram 
as mulheres duras que me precederam. 
E não eram demônios o que me punha um halo 
e provocava o furor de minha mãe.
Minha mãe morta 
minha pobre mãe, 
tal qual mortalha seu vestido de noiva
e nem era preciso ser tão pálida
e nem salvava ser tão comedida.
Foi tudo um erro, cinza
o que se apregoou como um tesouro.
O que tinha na caixa era nada.
A alma, sim, era turva
e ninguém a via. 
- Adélia Prado, em "O pelicano". Rio de Janeiro: Editora Guanabara Dois, 1987.



Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.




Amor no éter 

Há dentro de mim uma paisagem 
entre meio-dia e duas horas da tarde. 
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, 
entram e não neste lugar de memória, 
uma lagoa rasa com caniço na margem. 
Habito nele, quando os desejos do corpo, 
a metafísica, exclamam: 
como és bonito! 
Quero escrever-te até encontrar 
onde segregas tanto sentimento. 
Pensas em mim, teu meio-riso secreto 
atravessa mar e montanha, 
me sobressalta em arrepios, 
o amor sobre o natural. 
O corpo é leve como a alma, 
os minerais voam como borboletas. 
Tudo deste lugar 
entre meio-dia e duas horas da tarde.
- Adélia Prado, em "Terra de Santa Cruz". Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 23.



Amor violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
- Adélia Prado, em "Bagagem". São Paulo: Editora Siciliano, 1993.


Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira. 
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", 
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. 
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada. 
Em momentos de graça, infreqüentíssimos, 
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
- Adélia Prado, em "Bagagem". São Paulo: Editora Siciliano, 1993.



Branco
É no sonho que voltam para dar testemunho, 
insistentes e fustigados, 
batidos de halo e nimbo, uma legenda só: pungência pura. 
O que sempre falam as palavras não dizem. 
Sustidos no alto clima de claridade e pedras, 
sol sobre tufos verdes e areia, vento desencadeado, 
os fixos olhos dos que viram Deus avisam. 
Misericordiosos e imóveis.

- Adélia Prado, em "Terra de Santa Cruz". Rio de Janeiro: Record, 2006.



Bucólica nostálgica
Ao entardecer no mato, a casa entre
bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,
aparece dourada. Dentro dela, agachados,
na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,
rápidos como se fossem ao Êxodo, comem
feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,
muitas vezes abóbora.
Depois, café na canequinha e pito.
O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

- Adélia Prado, em "Bagagens". Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 54.



Códigos

O perfume das bananas é escolar e pacífico.
Quando mamãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar de aula,
eu achei morrer muito violoncelírico.
Abriam-se as pastas no começo da aula,
os lápis de ponta fresca recendiam.
O rapaz de espinhas me convocava aos abismos,
nem comia as goiabas,
desnorteada de palpitações.
Filho-da-puta se falava na minha casa,
desgraçado nunca, porque graça é de Deus.
No teatro ou no enterro,
o sexofone me põe atrás do moço,
porque as valsas convergem, os lençóis estendidos,
abril, anil, lavadeira no rio,
os domingos convergem.
O entre-parênteses estaca pra convergir com mais força:
no curso primário estudei entusiasmada o esqueleto humano da galinha.
Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza.
Por algum motivo fui parida incólume,
entre escorpiões e chuva.
- Adélia Prado, em "Coração disparado". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.




Contramor
O amor tomava a carne das horas
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira, o ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?
Entre pergunta e resposta, vi o dedo,
o meu, este que, dentro de minha mãe,
a expensas dela formou-se
e sem ter aonde ir fica comigo,
serviçal e carente.
Onde estás agora?
Sou-lhe tão grata, mãe,
sinto tanta saudade da senhora…
Fiz-lhe uma pergunta simples, disse o noivo.
Por que esse choro agora?
- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.




Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega, 
o amor fica sem saber se é ou não é. 
O amor pega o cavalo, 
desembarca do trem, 
chega na porta cansado 
de tanto caminhar a pé. 
Fala a palavra açucena, 
pede água, bebe café, 
dorme na sua presença, 
chupa bala de hortelã. 
Tudo manha, truque, engenho: 
é descuidar, o amor te pega, 
te come, te molha todo. 
Mas água o amor não é. 
- Adélia Prado, em "Poesia reunida". São Paulo: Siciliano, 1991, p. 181.



Domus
Adélia Prado - foto: (...)
Com seus olhos estáticos na cumeeira
a casa olha o homem.
A intervalos
lhe estremecem os ouvidos,
de paredes sensíveis,
discernentes:
agora é amor,
agora é injúria,
punhos contra a parede,
pânico.
Comove Deus
a casa que o homem faz para morar,
Deus
que também tem os olhos
na cumeeira do mundo.
Pede piedade a casa por seu dono
e suas fantasias de felicidade.
Sofre a que parece impassível.
É viva a casa e fala. 
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". São Paulo: Editora Record, 2007, p.21. 



Ensinamento

Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”. 
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente, 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo. 
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.


Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

- Adélia Prado, em "Bagagem" São Paulo: Editora Siciliano, 1993.




Formas
De um único modo se pode dizer a alguém:
Não esqueço você.
A corda do violoncelo fica vibrando
sozinha sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados
Meu coração causa pasmo porque bate e tem sangue nele
e vai parar um dia e virar um tambor patético se falas ao meu ouvido:
não esqueço você.
Manchas de luz na parede e uma rosa pequena com três rosas de plástico
Tudo no mundo é perfeito.
E a morte é amor.
- Adélia Prado, em "A faca no peito". Rio de Janeiro: Rocco, 1988.


Impressionista

Uma ocasião,

meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.


Janela 
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.
- Adélia Prado, em "Poesia reunida". São Paulo: Editora Siciliano, 1991.



Jó consolado

Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.


Meditação à beira de um poema
Podei a roseira no momento certo 
e viajei muitos dias, 
aprendendo de vez 
Adélia Prado - foto: (...)
que se deve esperar biblicamente 
pela hora das coisas. 
Quando abri a janela, vi-a, 
como nunca a vira, 
constelada, 
os botões, 
alguns já com o rosa-pálido 
espiando entre as sépalas, 
jóias vivas em pencas. 
Minha dor nas costas, 
meu desaponto com os limites do tempo, 
o grande esforço para que me entendam 
pulverizam-se
diante do recorrente milagre. 
Maravilhosas faziam-se  
as cíclicas, perecíveis rosas. 
Ninguém me demoverá 
do que de repente soube 
à margem dos edifícios da razão: 
a misericórdia está intacta, 
vagalhões de cobiça, 
punhos fechados,  
altissonantes iras, 
nada impede ouro de corolas 
e acreditai: perfumes. 
Só porque é setembro.
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". Rio de Janeiro: Editora Record, 2007 p. 33-34.



Neurolingüística
Quando ele me disse 
ô linda 
pareces uma rainha, 
fui ao cúmice do ápice 
mas segurei meu desmaio. 
Aos sessenta anos de idade, 
vinte de casta viuvez, 
quero estar bem acordada, 
caso ele fale outra vez. 
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p. 89.



O dia da ira

 As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.
- Adélia Prado, do livro "Bagagem", em "Poesia reunida". São Paulo: Siciliano, 1991, p. 25.


O nascimento do poema
O que existe são coisas,
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
Entender é um rapto,
é o mesmo que desentender.
Minha mãe morrendo,
não faltou a meu choro este arco-íris:
o luto irá bem com meus cabelos claros.
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me seqüestra de palavras e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes,vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.
- Adélia Prado, do livro "O pelicano", em "Poesia reunida". São Paulo: Siciliano, 1991, p. 325.


O oráculo 

A luz arcaica, 
a que antes de tudo 
no coração da treva preexistia, 
é a iminente aurora 
que do topo do mundo 
o galo anuncia. 
Dão medo 
seus olhos amarelos multimóbiles. 
Olhando fixo pra lugar nenhum, 
bruto como um profeta 
o galo anuncia.
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.


Adélia Prado - foto: (...)
O poeta ficou cansado
Pois não quero mais ser  
Teu arauto. 
Já que todos têm voz, 
por que só eu devo tomar navios 
de rota que não escolhi? 
Por que não gritas, Tu mesmo, 
a miraculosa trama dos teares, 
já que Tua voz reboa 
nos quatro cantos do mundo? 
Tudo progrediu na Terra 
e insistes em caixeiros-viajantes 
de porta em porta, a cavalo! 
Olha aqui, cidadão, 
repara, minha senhora, 
neste canivete mágico: 
corta, saca e fura, 
é um faqueiro completo! 
Ó Deus, 
me deixa trabalhar na cozinha, 
nem vendedor nem escrivão, 
me deixa fazer Teu pão. 
Filha, diz-me o Senhor, 
eu só como palavras.
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". São Paulo: Editora Record, 2007 p.9.


O sempre amor
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é a coisa que mais quero.
- Adélia Prado (Divinópolis – MG, 1935), em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.




O tesouro escondido
Tanto mais perto quanto mais remoto, 
o tempo burla as ciências. 
Quantos milhões de anos tem o fóssil? 
A mesma idade do meu sofrimento. 
O amor se ri de vanglórias, 
de homens insones nas calculadoras. 
O inimigo invisível se atavia, 
pra que eu não diga o que me faz eterna: 
te amo, ó mundo, desde quando 
irrebelados os querubins assistiam. 
De pensamentos aos quais nada se segue, 
a salvação vem de dizer: adoro-Vos, 
com os joelhos em terra, adoro-Vos, 
ó grão de mostarda aurífera, 
coração diminuto na entranha dos minerais. 
Em lama, excremento e secreção suspeitosa, 
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas. 
- Adélia Prado, em "Oráculos de maio". Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p.15.


Órfã na janela
Estou com saudade de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem gripe,
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,
querendo um pôster dele, no meu quarto,
gostando igual antigamente
da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai,
pra casa onde está meu pai.
- Adélia Prado, do livro "O coração disparado", em "Poesia reunida". 10ª ed., São Paulo: Siciliano,  2001, p. 213.




Para o Zé
Eu te amo, homem, hoje como
Toda vida quis e não sabia,
Eu que já amava de extremoso amor
O peixe, a mala velha, o papel de seda e os e os eixos
De bordado, onde tem
O desenho cômico de um peixe - os
Lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
Te amo. Teço as curvas, as mistas
E as quebradas, industriosa como abelha,
Alegrinha como florinha amarela, desejando 
As finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de parecer, as aparas de tuas unhas
perdidos nos casos que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra te saudar, me calo, falo em latim para requisitar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentar
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
Fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
Uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo ma faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
Os panos, se alargando aquecido, dando
A volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
O que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
Te amo de modo mais natural, vero-romântico,
Homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
A luz na cabeceira, o abajur de prata;
Como criada ama, vou te amar, delicioso amor:
Com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
Me abaixo e lavo os teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo. 
- Adélia Prado, em "Bagagem". São Paulo: Editora Civilização Brasileira/Record, 2006. p. 101 -102.


Poema começado no fim
Um corpo quer outro corpo.

Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
- Adélia Prado, em "A faca no peito". Rio de Janeiro: Rocco, 1988.




Sedução 

A poesia me pega com sua roda dentada,

me força a escutar imóvel

o seu discurso esdrúxulo.

Me abraça detrás do muro, levanta

a saia pra eu ver, amorosa e doida.

Acontece a má coisa, eu lhe digo,

também sou filho de Deus,

me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.


Sensorial
Adélia Prado - foto: (...)
Obturação, é da amarela que eu ponho. 
Pimenta e cravo, 
mastigo à boca nua e me regalo. 
Amor, tem que falar meu bem, 
me dar caixa de música de presente, 
conhecer vários tons pra uma palavra só. 
Espírito, se for de Deus, eu adoro, 
se for de homem, eu testo 
com meus seis instrumentos. 
Fico gostando ou perdoo. 
Procuro sol, porque sou bicho de corpo. 
Sombra terei depois, a mais fria.
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.






Tão bom aqui
Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.
- Adélia Prado, em “A duração do dia”. São Paulo: Editora Record, 2010, p. 9.

Tempo

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
- Adélia Prado, do livro "O Coração disparado", em 'Poesia Reunida', Rio de Janeiro: Editora Siciliano, 1991, p. 155.




Tentação em maio
Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
‘Do que é mesmo que falávamos?’
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.
- Adélia Prado, em "A duração do dia". São Paulo: Editora Record, 2010.



Adélia Prado - foto: (...)
Uma janela e sua serventia
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
- Adélia Prado, em "A duração do dia". São Paulo: Editora Record, 2010.



Viés
Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
- Adélia Prado, em "A duração do dia". São Paulo: Editora Record, 2010.

Adélia Prado - foto: (...)

UM CONTO DE ADÉLIA PRADO

O desbunde
Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou melhor, um derrière esplêndido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicicia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali, não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos tão  excitantes. O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava, "não salientava em nada", o Vicente Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda — como o Calixto chamou ela naquele dia — gostou.  Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto pra ele. Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base. Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo. Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do escritório eu tive, medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.
- Adélia Prado, em "Filandras", Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, p. 51.


“Lo que atrae en Adélia es que cuanto más crece su obra en calidad y extensión, más comprimido se vuelve su campo de observación. Es una poesia que habla del detalle ínfimo, de gestos, del dulce que se hace y se come de la olla, de pequeños (y grandes) deseos inconfesados, de sentimientos repetitivos, anti-heroicos. En fin, una metafísica única del universo doméstico.”
- Heloisa Buarque de Hollanda

Adélia Prado - foto: Walter Craveiro
Para perpétua memória de meu pai

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos, muitas vezes.
A mesma cara sem sombras,
os graves da fala em cantos, 
as palavras sem pressa.
Inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como a dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música cantava.
– Que ele cantasse era a natureza do sonho,
que fosse um canto alto e bonito,
era sua matéria. –
Acontecia na praça, sol e pombos
de asa branca e marrom
que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha,
os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza, é o que mais punge.
- Adélia Prado, em "Suplemento literário de Minas Gerais".  Belo Horizonte, v. 9, nº 412, 20 jul 1974, p. 9.



Amor violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
- Adélia Prado, em "Bagagem". Rio de Janeiro: Imago, 1976.




"Sou miserável, mas quando escrevo “sou miserável”, a miséria diminui um pouco. Aquilo que não é eu, ou melhor, aquilo que eu não sou, este aquilo me salva e o seu nome é GRAÇA. Pousada em minha carcaça, fazemos, carniça e ave, um até formoso conjunto. Se o livro for bom, não tem jeito de parecer tão feio quanto a vida, pois é o amor quem sustenta a bela narração do horrível. O poeta vê a tarde melancólica sobre Santo Antônio do Monte e escreve: “Paira no ar uma saudade triste...”. Nas tetas da suposta tristeza, todos vêm mamar alegria. O que está suposto na arte é amor divino, por isso é que é incansável, eterna, perene alegria. Artista nenhum gera sua própria luz, disto sei, e quem me contou não foi o sangue nem a carne, mas o Santo Espírito do Senhor."
- Adélia Prado, em "Cacos para um vitral". 5ª ed., São Paulo: Siciliano, 1994, p. 123. 


"Levamos nossa fé em vasos de barro, diz o apóstolo que me magoa por tratar mal as mulheres. Mas naquilo ele tem razão. E não só a Fé, a Beleza também é Bem portátil que se ganha e carrega. Veio antes de nós, foi gerada de cima e concedida. Por isso, uma e outra transem. Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia, "nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha". Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move. Vou é chorar de tanta boa pobreza."
- Adélia Prado, em "Solte os cachorros". Lisboa: Cotovia, 2003, p. 17.

Adélia Prado - foto: (...)

Senha
Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
Eu vou gerar um cacto sem espinho.
- Adelia Prado, em "Miserere". São Paulo: Editora Record, 2013.




“Um dos notáveis dons de Adélia Prado é a compreensão de que abraçar a vida é aceitar suas incríveis contradições.” 
Ellen Watson, tradutora americana da obra de Adélia Prado.

Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

- Adélia Prado, em "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993.


Oficina
Podem gritar

as cigarras
e as serras dos carpinteiros. 
Nunca serão funestas, 
fariam a tarde
que continua inconsútil. 
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
- Adélia Prado, em "Com Licença Poética". (Antologia). Lisboa: Cotovia, 2003, p. 120. 


EDITORA
:: Editora Record

AGENCIA 
(contato com a autora)
:: Agência Riff


REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
:: Enciclopédia da Literatura Brasileira do Itaú Cultural

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